O El Niño voltou ao centro das atenções em 2026 e, desta vez, com sinais de que pode alcançar uma intensidade excepcional. Em sua atualização mais recente, divulgada em 13 de agosto, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) aponta mais de 90% de probabilidade de um El Niño muito forte entre outubro e dezembro de 2026. Para o mesmo período, há 69% de probabilidade de que o fenômeno alcance níveis historicamente elevados. (NOAA – ENSO Diagnostic Discussion, 2026).
O cenário merece atenção não apenas pelos possíveis impactos sobre a agricultura, mas também pelos efeitos sobre recursos hídricos, ecossistemas, infraestrutura, energia, logística e cadeias de suprimentos. Para as empresas, o fenômeno reforça uma tendência importante: eventos climáticos precisam ser tratados também como riscos para a continuidade e a resiliência dos negócios.
Um fenômeno, diferentes impactos
O El Niño ocorre quando há um aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico equatorial, alterando padrões de circulação atmosférica, temperatura e precipitação em diferentes regiões do planeta.
No Brasil, seus efeitos não são uniformes. As projeções atuais indicam maior probabilidade de chuvas acima da média no Sul, enquanto partes do Norte e Nordeste podem enfrentar condições mais quentes e secas. Essas projeções representam tendências e probabilidades, e não determinam exatamente o clima de cada localidade.
Essa diferença regional é justamente um dos pontos de atenção: enquanto algumas regiões podem lidar com excesso de água, outras podem enfrentar escassez e maior estresse ambiental.
Os principais riscos ambientais
Estresse hídrico e redução dos níveis dos rios
A alteração da disponibilidade de água está entre os principais riscos associados ao fenômeno.
Na Amazônia, a combinação entre El Niño, temperaturas elevadas e menor precipitação pode contribuir para a redução dos níveis dos rios. Isso afeta não apenas o transporte e o abastecimento, mas também ecossistemas aquáticos e comunidades que dependem dos rios.
Para os ecossistemas, a redução da disponibilidade hídrica pode aumentar o estresse sobre habitats e espécies e ampliar a vulnerabilidade de áreas naturais.
Maior risco de incêndios
Temperaturas elevadas combinadas à baixa umidade e ao déficit de precipitação também aumentam a vulnerabilidade a incêndios.
Na Amazônia, estudos sobre o período de seca associado ao El Niño de 2023–2024 identificaram aumento de áreas queimadas e de alertas de degradação florestal, evidenciando como períodos de estresse climático podem agravar a pressão sobre ecossistemas já vulneráveis (FAPESP – Longer droughts and changes in rainfall are already occurring in the Amazon, 2026).
Embora os impactos de 2026 ainda não possam ser determinados, o cenário reforça a necessidade de monitoramento e prevenção.
Chuvas intensas, enchentes e erosão
No Sul do Brasil, o cenário tende a ser diferente. A maior probabilidade de precipitação acima da média pode favorecer episódios de chuvas intensas, aumentando os riscos de enchentes, erosão, assoreamento, deslizamentos e danos à infraestrutura.
O excesso de água também pode favorecer o transporte de sedimentos e contaminantes para corpos hídricos, ampliando os impactos ambientais.
Assim, um mesmo fenômeno climático pode gerar riscos ambientais opostos em diferentes regiões.
Quando o risco climático chega às empresas
Os impactos do El Niño não precisam ocorrer diretamente dentro de uma empresa para gerar consequências econômicas.
Uma organização pode depender de fornecedores, rodovias, hidrovias, energia ou recursos naturais localizados em regiões vulneráveis. A Reuters destaca, por exemplo, o risco de níveis mais baixos dos rios amazônicos afetarem o transporte, enquanto chuvas excessivas no Sul podem prejudicar estradas e infraestrutura.
A cadeia de impactos pode ser resumida em:
evento climático → impacto ambiental → interrupção operacional → aumento de custos → risco financeiro.
Recursos hídricos
Para empresas que dependem de água em seus processos produtivos, alterações na disponibilidade hídrica podem afetar captação, produção, resfriamento, limpeza e outros processos industriais.
Também podem surgir restrições de captação, mudanças na qualidade da água, maior competição pelo recurso e necessidade de fontes alternativas de abastecimento.
Por isso, conhecer a disponibilidade e a vulnerabilidade dos recursos hídricos de uma região é parte importante da gestão de riscos ambientais e operacionais.
Energia
O setor energético também pode ser afetado pelas alterações no regime de chuvas.
Em regiões onde a geração hidrelétrica possui papel relevante, mudanças na disponibilidade de água podem alterar as condições de geração. Ao mesmo tempo, diferentes regiões podem apresentar efeitos distintos em função da distribuição das chuvas.
Para as empresas, isso reforça a importância de avaliar a dependência energética e a vulnerabilidade das operações a eventos climáticos.
Infraestrutura e continuidade operacional
Instalações industriais, sistemas de drenagem, estradas, pontes, portos e estruturas de armazenamento também estão expostos aos eventos extremos.
Chuvas intensas podem provocar alagamentos e danos físicos, enquanto períodos de seca podem comprometer o abastecimento de água e a navegabilidade de rios.
Nesse contexto, a questão climática deixa de ser apenas ambiental e passa a fazer parte da gestão da continuidade dos negócios.
O risco também está na cadeia de valor
A exposição climática não termina nos limites físicos da empresa.
Fornecedores podem estar localizados em regiões sujeitas a seca ou chuvas excessivas, enquanto transportadoras podem depender de rodovias ou hidrovias vulneráveis. Clientes também podem sofrer impactos que alterem sua demanda ou capacidade de operação.
Por isso, avaliar riscos climáticos apenas dentro das instalações próprias pode gerar uma visão incompleta da vulnerabilidade empresarial.
Uma avaliação mais abrangente deve considerar operações, fornecedores, infraestrutura, recursos naturais e regiões estratégicas da cadeia de valor.
Do monitoramento climático à gestão de riscos
O fortalecimento do El Niño não significa que todas as empresas sofrerão os mesmos impactos. Significa que as organizações podem começar a avaliar onde estão expostas e quais medidas podem reduzir sua vulnerabilidade.
Algumas questões são estratégicas:
- Quais processos dependem diretamente de recursos hídricos?
- Quais unidades estão expostas a secas, enchentes ou incêndios?
- Quais fornecedores e rotas logísticas estão em regiões vulneráveis?
- Quais impactos ambientais podem ocorrer durante eventos extremos?
- Existem planos de contingência e adaptação?
Transformar essas informações em planos de ação permite que o monitoramento climático deixe de ser apenas acompanhamento de previsões e passe a fazer parte da gestão de riscos empresariais.
Preparação é parte da resiliência empresarial
O El Niño de 2026 ainda representa um cenário de probabilidades, e seus impactos regionais podem variar ao longo dos próximos meses. Entretanto, o fortalecimento das projeções é suficiente para justificar uma postura preventiva.
Mais do que tentar prever exatamente onde ocorrerá cada evento extremo, as empresas podem trabalhar na identificação de suas vulnerabilidades, na avaliação dos recursos dos quais dependem e na definição de medidas de adaptação.
Monitorar o clima é apenas o primeiro passo. Transformar essa informação em gestão de riscos é o que permite aumentar a resiliência dos negócios.
Como a biO3 pode apoiar sua empresa
A biO3 atua na integração entre meio ambiente, sustentabilidade e gestão empresarial, com soluções relacionadas a gestão de riscos, recursos hídricos, biodiversidade, cadeia de suprimentos e indicadores de sustentabilidade.
Nesse contexto, eventos como o El Niño podem ser incorporados à avaliação ambiental e estratégica das organizações, permitindo identificar vulnerabilidades, compreender possíveis impactos e estruturar medidas de prevenção e adaptação.
Antecipar riscos ambientais é também uma forma de proteger operações, recursos e o futuro dos negócios.
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